29
Jun 11

Uma oliveira na cidade (artigo de opinião, João Seixas)

Uma oliveira na cidade

No dia 18 de Junho passado, numa cerimónia simples, as cinzas de José Saramago foram colocadas à sombra de uma oliveira, no popular Campo das Cebolas, em Lisboa, em frente à Casa dos Bicos, histórico edifício de arquitectura civil onde ficará sediada a fundação cultural. Saramago foi um fortíssimo reflector das almas, das luzes e das sombras dos homens. Um extraordinário cidadão do mundo, amante da cidade e da cidadania plena. Com plena humanidade, na sua lápide a frase “Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”. Deixou uma obra enorme, uma obra para o futuro com a força do passado.

À sombra de uma oliveira. Da Azinhaga, aldeia ribatejana onde nasceu. A oliveira é símbolo mediterrâneo por excelência, padrão de cultura, de riqueza, de resistência e de longevidade. Elementos também chave para uma cidade, como a muy antiga Lisboa, filha de Roma e de Atenas, ardilosamente tecida por longos séculos, por entre uma fértil e bela região envolvente, uma crescente vastidão marítima e uma população variada e disponível. E entre cristãos-velhos e judeus-novos, diversidades e uniformidades, alegrias e iniquidades.

“Lisboa ali estava, oferecida na palma da terra, agora alta de muros e casas. A barca aproou à Ribeira, fez o mestre manobra para encostar ao cais depois de ter arriado a vela, e os remadores levantaram num só movimento os remos do lado da atracação, os do outro lado harpejaram a amparar, mais um toque no leme, um cabo lançado por cima das cabeças, foi como se tivessem juntado as duas margens do rio” (in Memorial do Convento).

Este gesto de Lisboa tem um imenso significado. Pela atenta homenagem a quem ama a cidade: “Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro” (in Palavras para uma cidade). E Saramago regressou à cidade que amava, renovando esperanças com ela, mesmo se uma parte dela o tivesse exilado.

Pela força cultural e política da obra do homem e escritor. Uma obra em prol da cidadania. A cidade é espelho de nós próprios, como indivíduos e como colectivo. Mas tem sido colonizada por capitalismos extremos, por tecnicismos corporativos, por consumismos banalisadores de desejos. E ainda vêm tempos mais difíceis, bem se sabe. De novo, histórias de cerco à cidade. Muita cegueira, na nossa caverna. E tão necessária lucidez.

A lucidez, tal como a cidade e a cidadania – e a oliveira –, é trabalho longo e de fundo. Tanto necessita de estratégias de longo prazo como de intimidades quotidianas. Por entre a precariedade laboral, as hipotecas e os hipermercados, os desprezos e as esquizofrenias mediatico-políticas, os cidadãos das cidades futuras serão mais cosmopolitas e mais exigentes. Mais empenhados e dispostos a fazerem o gesto, a dizerem a palavra: “os vivos ainda têm tempo (...) para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de não a ter dito, morre-se de não o ter feito” (in O ano da morte de Ricardo Reis).

Para que as cidades sejam mais vivas, justas e criativas. Para que sejam cidades onde se conjuguem diferenças e compromissos, e onde se construam projectos. Para que sejam cidades bem governadas. E para que cada um dos seus lugares possa ser lugar de desejo e de realização. De Liberdade.

“Sabemos muito mais do que julgamos, podemos muito mais do que imaginamos”. Pois “somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não” (in entrevistas).

E pela postura de uma cidade que, assumidamente, defende princípios e valores. Uma cidade verdadeiramente política. Não há política sem cidade. E vice-versa. Cada cidade fará as suas escolhas, por entre um futuro fragmentado, receoso e insustentável, ou um futuro mais inclusivo, plural e cosmopolita. E “Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra” (in Palavras para uma cidade). Prossigamos, assim, com o trabalho longo de construir comunidade, com a força e a frescura de uma oliveira.

João Seixas
Geógrafo
In Público, 27 de Junho de 2011


http://www.josesaramago.org/detalle.php?id=1275

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29
Jun 11

Programa de Governo

As 'cidades pela retoma' no programa do governo
 
 
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28
Jun 11
28
Jun 11

Alboi - Um Canto de Mundo!

Histórias como esta vão ocorrendo com uma relativa frequência, um pouco por todo o lado. O enredo conta-se em poucas palavras.

A autarquia de Aveiro, no âmbito do instrumento de política de cidades - Parcerias para a Regeneração Urbana, num projecto designado 'Parque da Sustentabilidade', quer intervir no bairro histórico do Alboi construindo uma rua pelo meio do jardim do bairro, desviando trânsito de atravessamento para o seu interior.  

Os moradores do bairro estão apreensivos e preocupados com as consequências do projecto e querem ser ouvidos mas a autarquia tem recusado o diálogo. Apesar do protesto e dos lamentos a autarquia já abriu concurso para a obra que prevê iniciar em Agosto.

O compositor/músico e realizador Joaquim Pavão entendeu dar um pequeno contributo para alertar para esta situação e encontra-se a produzir o documentário 'Alboi - Um Canto do Mundo'.

A primeira parte do trabalho (feita com os moradores)  está já disponível em http://www.youtube.com/watch?v=dX_sEWp1Yh0. A autarquia foi convidada a dar um testemunho para o próximo capítulo do documentário.

Se quiser dar o seu contributo para esta história, divulgue o vídeo!

 

Mais informação:
Produção:
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27
Jun 11

MERCADO DE TROCAS DE FARO - 3 DE JULHO, LARGO DA MADALENA

TrocAqui__Imag.jpg


Glocal>Faro organiza Mercado de Trocas no concelho
É já no próximo dia 3 de Julho que acontecerá a 1ª edição do Mercado de Trocas de Faro – o TrocAqui. Ao contrário do que normalmente acontece, para fazer compras neste mercado não é preciso levar dinheiro - basta disponibilizar produtos ou serviços para intercambiar com outras pessoas. Alimentos da horta, brinquedos, CDs ou peças de artesanato, são alguns exemplos de bens, de produção própria ou usados, que os interessados poderão trazer e/ou encontrar neste espaço. Mas também os “saberes”, sob a forma de serviços prestados (no local ou mais tarde), animação, formação, etc. servirão de moeda de troca no TrocAqui.

Este tipo de iniciativa, que já acontece noutras localidades da região, pretende reforçar mecanismos de economia alternativa, solidária, que dispensando o uso de dinheiro e revitalizando circuitos de produção local, assumem cada vez mais óbvio interesse face à actual situação de crise.

Optando pela máxima simplificação da estrutura de apoio, a participação nesta iniciativa está aberta a todos sem necessidade de inscrição prévia – mas requerendo que cada um leve expositor, banca ou qualquer outro equipamento de que necessite.

Podem participar pessoas a título individual, assim como organizações.

O TrocAqui irá ainda contribuir para dar mais vida ao centro da cidade de Faro, sendo o evento acolhido pelo Largo da Madalena na manhã (10h-13h) do 1º domingo de cada mês.

Mais informação e Regras de Funcionamento em: http://glocalfaro.blogspot.com/p/mercado-de-trocas.html

Organização da acção: Glocal>Faro

Apoio: Câmara Municipal de Faro, Junta de Freguesia de S. Pedro

Visite o Blogue: http://glocalfaro.blogspot.com/ e a página no Facebook
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27
Jun 11

Routledge Planning and Urban Studies Journals - Free Articles

Routledge Planning and Urban Studies Journals - Free Articles
http://www.tandf.co.uk/journals/offers/planning-urban/index.asp
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22
Jun 11

lista de discussão electrónica sobre o tema das Indústrias Culturais e Criativas

Nova lista de discussão electrónica sobre o tema das 'Indústrias Culturais e Criativas' (https://groups.google.com/group/industrias-culturais-e-criativas/).
Se desejar subscrever envie um email para industriasculturaisecriativas@gmail.com com referência mailing-list.
Indústrias Culturais e Criativas em Portugal
https://www.facebook.com/CidadesCriativas
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22
Jun 11

CAID - Revista "A OCUPAÇÃO DISPERSA NO QUADRO DOS PROT E DOS PDM"

Car@ Aminimig@ da Dispersão:

Acaba de sair, em formato digital, a revista:
A OCUPAÇÃO DISPERSA NO QUADRO DOS PROT E DOS PDM
Jorge Carvalho, Alexandre Cancela d'Abreu (Coordenação)
DGOTDU, Junho 2011 | EDIÇÃO DIGITAL
Publicação associada ao Seminário
"A Ocupação Dispersa no quadro dos PROT e dos PDM"
realizado na Universidade de Évora em 12 de Novembro de 2009
no âmbito do Projecto "Custos e benefícios, à escala local, de uma ocupação dispersa"
Documento para download:
http://www.dgotdu.pt/detail.aspx?channelID=EA8A5676-1FBC-4CD4-A35D-61AC1FF66079&contentId=3E2D54F9-B180-403D-B36C-79BBAA067E6A
Pode consultá-la também no blogue do CAID.

Saudações

Fátima Saraiva
(Direcção do CAID)
http://clubedadispersao.blogspot.com/
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21
Jun 11
21
Jun 11

'Villes du futur, futur des villes : quel avenir pour les villes du monde?'

documento produzido pelo Parlamento Francês ('Senat') sobre o 'futuro das cidades'

«L'avenir des villes est trop peu présent dans les débats politiques. Pourtant, c'est sans doute dans les villes que se jouera une partie du destin de l'humanité, car déjà plus de la moitié de la population de notre planète - près de trois milliards d'individus - est aujourd'hui composée de citadins. Dans trente ans, c'est-à-dire demain, ils seront cinq milliards vivant dans plus d'une trentaine de mégapoles et de nappes urbaines de plus de dix millions d'habitants.

Ce sont les villes qui poseront à l'avenir les problèmes les plus sérieux à l'humanité : utilisation des ressources en eau de plus en plus rares, lutte contre les gaz à effet de serre et contre la pollution atmosphérique, remise en question de certains modes de transport du fait de la raréfaction des carburants fossiles, prise en compte des changements climatiques et de leurs conséquences en terme d'inondations ou de climatisation des lieux de vie, problèmes posés par les fractures sociales, par les catastrophes industrielles et par l'insécurité, phénomènes de ghettoïsation, etc.

Les sociétés pourront-elles faire face à ces défis grâce à de nouvelles solidarités, à de nouveaux choix financiers, à l'action des puissances publiques au niveau des villes, des Etats et au plan mondial, grâce à l'innovation, à l'initiative économique, aux réseaux intelligents, aux progrès des moyens de déplacement, à de nouvelles formes de gouvernance et de citoyenneté adaptées à la maîtrise du phénomène urbain ? Quelle sera la vie des femmes et des hommes dans les villes du futur ? Les réseaux de villes sont-ils des alternatives crédibles au gigantisme urbain ? Quels scenarii prendre en compte pour agir dès maintenant sur les facteurs qui façonneront la ville de demain ?

Quelles réponses peut-on apporter à ces questions qui interpellent le monde politique ? C'est tout le sens de ce rapport de prospective de la délégation sénatoriale à la prospective, dont le président est Joël Bourdin (UMP, Eure) et le rapporteur Jean-Pierre Sueur (Soc., Loiret)»

http://www.observatoire-de-la-ville.com/actualites/2011-06/villes-du-futur--futur-des-villes--quel-avenir-pour-les-villes-du-monde--.html

http://www.senat.fr/rap/r10-594-1/r10-594-11.pdf
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17
Jun 11
17
Jun 11

FESTIVAL CICLÁVEL CICLORIA (1 a 3 de JULHO 2011)

FESTIVAL CICLÁVEL CICLORIA
https://www.facebook.com/video/video.php?v=1898414660188
1 a 3 de JULHO 2011
Inscrições: http://www.cicloria.org.pt/
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16
Jun 11
16
Jun 11

VII Encontro Nacional dos Planeadores do Território (ENPlanT 2011)

VII Encontro Nacional dos Planeadores do Território (ENPlanT 2011) - Programa Final
Univ. Aveiro, 24 de Junho 2011
http://www.applaneadores.pt/docs/Programa%20ENPlanT2011.pdf
http://www.applaneadores.pt/

Inscrições: http://www.applaneadores.pt/ENPlanT2011Programa.xml
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15
Jun 11
15
Jun 11

O futuro do poder local em Portugal

Duas sugestões de leitura:

Uma primeira para um oportuno comentário do João Seixas sobre a reforma do poder local
‎'Especialistas alertam para perigo de "receitas genéricas" e de "miopia" na reforma administrativa' (LUSA) notícia pode ser consultada no seguinte link http://futurodopoderlocal.blogs.sapo.pt/.

Uma segunda para o trabalho que a Associação de Municípios do Reino Unido (NLGN) está a fazer preparando a reforma do poder local que o governo inglês está a promover.
'Councils must prepare for a new future to reflect the emerging reality - The New Local Government Network has set up a commission to help local authorities plan for the challenges that lie ahead'
http://www.guardian.co.uk/local-government-network/2011/jun/14/councils-prepare-future-emerging-reality  
http://www.nlgn.org.uk/public/commission-next-localism/  

 

 

Mais informação:

http://www.facebook.com/futuropoderlocal

http://futurodopoderlocal.blogs.sapo.pt/

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13
Jun 11

O futuro do poder local em Portugal

contributos para iniciar a reflexão

Fusões devem gerar 'municípios viáveis' SOL
http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=21588

Filipe Teles - O futuro do poder local
https://www.facebook.com/notes/filipe-teles/mini-contributo-para-o-debate/2108077138777

Carlos Jalali - O futuro é local
http://plataformacidades.blogspot.com/2011/05/o-futuro-e-local.html
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13
Jun 11

Cidades pela Retoma, Artigo no Público

10-06-2011 P%FAb.jpg


notícia no Público sobre o segundo dia da conferência 'Cidades pela Retoma' no Porto.
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09
Jun 11
09
Jun 11

'Making more with less: Low-Cost & High-Value Ideas for Cities'

'Making more with less: Low-Cost & High-Value Ideas for Cities', José Carlos Mota

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08
Jun 11
08
Jun 11

fotografias da 1.ª sessão - 2ª Conferência Cidades pela Retoma Porto (3 Junho)

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Boas-vindas | Miguel Barbot | ACdP

http://www.acdporto.org/

Reabilitação Low-cost | Filipe Teixeira | Plano B e Low-cost Houses

http://lowcosthouses.wordpress.com/ & http://www.planobporto.com/

A criatividade em tempo de crise: caso FilmesdaMente | Nuno Rocha e Victor Santos | FilmesdaMente

Projecto Es.Col.A | João Taborda e Ewelina | Es.Col.A: espaço autogestionado do Alto da Fontinha

 

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06
Jun 11
06
Jun 11

2ª Conferência Cidades pela Retoma Porto (9 de Junho)

2ª Conferência Cidades pela Retoma Porto

http://www.acdporto.org/


Auditório do P.INC: Pólo de Indústrias Criativas - UPTEC | Praça Coronel Pacheco, 2, 4050-453 Porto

Inscrições: acdporto@acdporto.org






9 junho (21h00-23h30)

Boas-vindas | Vitor Silva | ACdP

Media pela Cidade | Ana Isabel Pereira | Porto24

Por uma reabilitação urbana Open Source | Adriana Floret e David Afonso | Floret Arquitectura

Ideias para a Cidade | Alexandre Ferreira e Pedro Menezes Simões | ACdP

Global City 2.0 e encerramento | Rodrigo Cardoso | Cidades pela Retoma
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03
Jun 11

Cidades pela Retoma: artigo no público

public_3jun2011.jpg

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03
Jun 11

Art, Identity and the Technology of Transformation

http://artshare.com.pt/cr12/papers/
In cooperation with the Planetary Collegium, University of Plymouth, England, Fabrica das Artes, CCB, Lisbon and Artshare, Aveiro, Portugal are hosting the 12th Consciousness Reframed International Research Conference, entitled "PRESENCE IN THE MINDFIELD: Art, Identity and the Technology of Transformation". The conference is part of the Skilled Art Project, a consortium involving Artshare, The University of Oporto and The University of Aveiro, all in Portugal, and will take place at Centro Cultural de Belém, Lisbon, Portugal, from November 30 to December 2, 2011.

The Consciousness Reframed conference series was founded by Roy Ascott at the University of Wales in 1997. Consciousness Reframed is a forum for trans-disciplinary inquiry into art, science, technology, design and consciousness, drawing upon the expertise and insights of artists, designers, architects, performers, musicians, writers, scientists, and scholars, usually from at least 20 countries.
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02
Jun 11
02
Jun 11

PROTESTO E PROPOSTA: O futuro do Mercado do Bom Sucesso (artigo de opinião de Rodrigo Cardoso)

[artigo publicado hoje no Jornal Público]

A Câmara Municipal do Porto tem vindo a liderar o processo de cedência do direito de superfície do Mercado do Bom Sucesso a um promotor privado, que pretende reabilitar o edifício para lá instalar um novo programa funcional. Os vários episódios deste processo têm sido criticados por muitos grupos (incuíndo a Associação de Cidadãos do Porto, cuja posição se exprime neste texto), que se opõem à intervenção arquitectónica, ao novo programa, que ao manter um comércio tradicional residual, o aproxima da visão anódina e homogénea de um shopping, e ao próprio processo de decisão, que, sem qualquer debate ou consulta, define assim o futuro de um dos espaços mais emblemáticos do Porto. Casos recentes de decisões unilaterais sobre espaços colectivos da cidade, levam a que muitos critiquem a reincidência do executivo na opção de promover a apropriação por privados de espaços públicos, o que, não sendo um mal em si, é frequentemente resultado de processos que ilustram a degeneração das práticas colectivas urbanas e a desconfiança crescente entre o poder e a sociedade civil. Porventura, estes exemplos demonstram bem a diferença entre governar uma Câmara e governar uma Cidade.
É preciso que tudo mude, para que tudo possa ficar como está, dizia Lampedusa (primeiro) e mais umas dezenas de comentadores (depois). Esta constatação aplica-se bem à discussão sobre o Bom Sucesso, assim como a muitos espaços da cidade onde a falta de imaginação e a lei do menor esforço se aliam para definir as soluções menos interessantes para a sua regeneração.

Ninguém duvida que um mercado de frescos tradicional deixou de ser um tradicional mercado de frescos. E que a "população" tem mais sítios aonde ir, uns melhores, outros mais baratos, outros mais funcionais. Isto é verdade em qualquer parte do mundo; só que a população não é uma entidade homogénea, e os estudos ou intuições sobre "o que as pessoas querem" não têm muito valor numa sociedade complexa e diversificada. Por isso, nem colhe o argumento de que o mercado tradicional deixou de fazer sentido no contexto urbano actual, nem o de que há que lutar contra a cedência "ao capital" do suposto serviço público da população. O primeiro faz de conta que só existe um tipo de pessoas e de hábitos, o segundo finge que a ideologia influencia a nossa compra de hortaliças.

Finalmente, a ideia de que o acesso aos escritórios e serviços "obriga" as pessoas a passar pelas poucas bancadas tradicionais que restarem enferma de uma visão de mercado-jardim-zoológico (subir ao mezzanine e espreitar o 'exótico'?) que vale tanto como dizer que a indústria têxtil do Porto está viva nas maquinetas do NorteShopping.

O problema é outro, e tem a ver com a necessidade de funções paralelas na cidade, a servir ricos, pobres e remediados, turistas, residentes e city-users. Tal como a existência de analfabetos não invalida a necessidade de ter universidades, é a questão pragmática da diversidade, da acumulação, e até da redundância necessária que importa discutir. Para além, claro, da questão patrimonial, levantada por arquitectos e outros profissionais preocupados com o modo como uma proposta formal excessiva desvirtua as características essenciais do mercado. E não, a fachada não é o principal: é preferível pintá-la de rosa-choque e manter aquele espaço interior iluminado e íntegro, a usar o velho truque da "caixa dentro da caixa" para atafulhar o mercado com volumetrias insólitas.

Por tudo isto, há que passar do protesto à proposta, e aprender com cidades que já regeneraram os seus mercados e fizeram deles fontes de diversidade social, oferta comercial, rentabilidade e turismo.

1. Modernizar a oferta através de 'especializações' paralelas e variáveis: produtos gourmet, mas também happy hours de sumos naturais, produção biológica, gastronomia de outros continentes e culturas, semanas temáticas, entre outras.

2. Em função da localização, apontar a oferta ora para residentes, ora para turistas, ora para city-users. Os mercados não servem todos o mesmo público, nem o mesmo poder de compra.

3. Funcionamento em rede: criar uma rede 'oficial' de mercados da cidade, a partilhar recursos, eventos e públicos, tornando eficaz a gestão e transmitindo uma ideia de dimensão, que pode até ser exagerada, mas é útil; integrar também estes espaços nas redes europeias de mercados, e com isso partilhar produtos, divulgação e programas educativos.

4. Em horários alargados e versáteis, levar outras actividades aos mercados. Numa cidade que passa o tempo a organizar eventos ligados à gastronomia e vinhos, porque não levá-los, juntamente com os congressos, as dezenas de workshops, provas de vinhos, e apresentações de escolas de hotelaria, para a rede de mercados? Porque não pegar no sector da gastronomia e vinhos, um dos pontos fortes da cidade, para actualizar as funções dos mercados, com consequências óbvias na atitude (e na renovação) dos vendedores, no funcionamento, na diversidade de públicos e na rentabilidade.

Ou seja, trata-se de aprender com quem já passou pelos mesmos desafios, e usar a imaginação para perceber que os hábitos não são tão estáveis como os estudos mostram e que a cidade 'social' muda muito mais depressa do que a sua correspondente 'física'.


Rodrigo Viseu Cardoso, Arquitecto
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