PROTESTO E PROPOSTA: O futuro do Mercado do Bom Sucesso

[A posição da Associação de Cidadãos do Porto]

É preciso que tudo mude, para que tudo possa ficar como está, já dizia Lampedusa (primeiro) e mais umas dezenas de comentadores (depois), a respeito de tudo e de nada. Esta constatação aplica-se bastante bem à discussão sobre o mercado do Bom Sucesso, assim como à maioria dos espaços da cidade onde a falta de imaginação e a lei do menor esforço se aliam para definir as soluções menos interessantes e mais conformistas para a sua regeneração.

Ninguém duvida que um mercado de frescos tradicional deixou de ser um tradicional mercado de frescos. E que a "população" tem mais sítios onde ir, uns melhores, outros mais baratos, outros mais funcionais. Isto é assim em qualquer parte do mundo; só que a população não é uma entidade homogénea, e os estudos ou intuições sobre "o que as pessoas querem" não têm muito valor numa socidade complexa e variada. Por isso, nem colhe o argumento de que o "mercado tradicional" deixou de fazer sentido numa sociedade moderna e automobilizada, nem o de que há que lutar contra as cedências "ao capital" contra o serviço público da população. O primeiro faz de conta que só existe um tipo de pessoas e de hábitos, o segundo finge que a ideologia e a classe social influenciam a nossa compra de frutas e legumes.

O problema é outro, e tem a ver com as funções PARALELAS presentes na cidade, que servem ricos, pobres e remediados, turistas, residentes e city-users. Tal como a existência de analfabetos não invalida a necessidade de ter universidades, é a questão pragmática da diversidade, da acumulação, e até de alguma "redundância necessária" que importa discutir. Para além, claro, da questão patrimonial, amplamente defendida por arquitectos e outros profissionais preocupados com o modo como uma proposta formal excessivamente afirmativa desvirtua em absoluto as características essenciais do mercado. E não, a "fachada" não é o mais importante. Aliás, o fachadismo teve o seu tempo: é preferível pintar a fachada do mercado de rosa-choque e manter aquele espaço interior iluminado e íntegro, a usar o velho truque da "caixa dentro da caixa" para atafulhar o mercado de volumetrias insólitas.

Finalmente, a ideia de que o acesso aos escritórios e serviços "obriga" as pessoas a passar necessariamente pelas poucas bancadas que restarem enferma de uma visão de mercado-jardim-zoológico (para subir ao mezzanine e espreitar o 'exótico') que vale tanto como dizer que a indústria têxtil do Porto está viva nas maquinetas do NorteShopping.

Por tudo isto, há que passar do protesto à proposta, e aprender com cidades que já regeneraram os seus mercados e fizeram deles fontes de diversidade social, oferta comercial paralela, rentabilidade e turismo. Ficam algumas sugestões:

1.. Modernizar a oferta dos mercados da cidade através de 'especializações' paralelas e variáveis: produtos gourmet, mas também frutas frescas, happy hours de sumos naturais, produção biológica, gastronomia de outros continentes e culturas, etc.
2.. Em função da localização, apontar a divulgação e a oferta ora para residentes, ora para turistas, ora para city-users. Os mercados não servem todos o mesmo público (e o 'povo' não está sentado à espera para lá ir).
3.. Funcionamento em rede: criar uma rede 'oficial' de mercados da cidade, a partilhar recursos, eventos e públicos, tornando eficaz a gestão e transmitindo uma ideia de dimensão e massa crítica, que pode até ser exagerada, mas é útil.
4.. Em horários alargados e versáteis, levar todo o tipo de eventos aos mercados. Numa cidade que passa o tempo a organizar eventos, feiras e congressos ligados à gastronomia e vinhos, porque não aproveitar a Essência do Vinho, o Porto.come, a Rota do Gosto, os congressos internacionais de gastronomia, as dezenas de workshops, provas de vinhos, apresentações de escolas de hotelaria e de restaurantes, etc.? Tudo isto podia ser realizado na rede de mercados do Porto, de forma rotativa. Basicamente, centralizar tudo o que tenha a ver com gastronomia e vinho, um dos pontos fortes da cidade, como forma de actualizar as funções dos mercados, com consequências óbvias na atitude (e na renovação geracional) dos vendedores, nos horários de funcionamento, no tipo e diversidade de públicos e na rentabilidade.
5.. Finalmente, integrar estes espaços nas redes europeias e mundiais de mercados de frescos (que existem) e com isso partilhar produtos, divulgação, programas educativos, etc.
Ou seja, trata-se de assumir a diversidade, compreender os novos tempos, aprender com quem já passou pelos mesmos desafios, não transformar tudo em batalhas ideológicas e, principalmente, usar a imaginação para perceber que os hábitos das pessoas não são tão regulares como as estatísticas mostram e que a cidade 'social' muda muito mais depressa do que a sua correspondente 'física'.

Mais informação:

http://www.acdporto.org/

http://mercadobomsucesso.wordpress.com/
publicado por JCM às 01:51 | comentar | favorito