PROTESTO E PROPOSTA: O futuro do Mercado do Bom Sucesso (artigo de opinião de Rodrigo Cardoso)

[artigo publicado hoje no Jornal Público]

A Câmara Municipal do Porto tem vindo a liderar o processo de cedência do direito de superfície do Mercado do Bom Sucesso a um promotor privado, que pretende reabilitar o edifício para lá instalar um novo programa funcional. Os vários episódios deste processo têm sido criticados por muitos grupos (incuíndo a Associação de Cidadãos do Porto, cuja posição se exprime neste texto), que se opõem à intervenção arquitectónica, ao novo programa, que ao manter um comércio tradicional residual, o aproxima da visão anódina e homogénea de um shopping, e ao próprio processo de decisão, que, sem qualquer debate ou consulta, define assim o futuro de um dos espaços mais emblemáticos do Porto. Casos recentes de decisões unilaterais sobre espaços colectivos da cidade, levam a que muitos critiquem a reincidência do executivo na opção de promover a apropriação por privados de espaços públicos, o que, não sendo um mal em si, é frequentemente resultado de processos que ilustram a degeneração das práticas colectivas urbanas e a desconfiança crescente entre o poder e a sociedade civil. Porventura, estes exemplos demonstram bem a diferença entre governar uma Câmara e governar uma Cidade.
É preciso que tudo mude, para que tudo possa ficar como está, dizia Lampedusa (primeiro) e mais umas dezenas de comentadores (depois). Esta constatação aplica-se bem à discussão sobre o Bom Sucesso, assim como a muitos espaços da cidade onde a falta de imaginação e a lei do menor esforço se aliam para definir as soluções menos interessantes para a sua regeneração.

Ninguém duvida que um mercado de frescos tradicional deixou de ser um tradicional mercado de frescos. E que a "população" tem mais sítios aonde ir, uns melhores, outros mais baratos, outros mais funcionais. Isto é verdade em qualquer parte do mundo; só que a população não é uma entidade homogénea, e os estudos ou intuições sobre "o que as pessoas querem" não têm muito valor numa sociedade complexa e diversificada. Por isso, nem colhe o argumento de que o mercado tradicional deixou de fazer sentido no contexto urbano actual, nem o de que há que lutar contra a cedência "ao capital" do suposto serviço público da população. O primeiro faz de conta que só existe um tipo de pessoas e de hábitos, o segundo finge que a ideologia influencia a nossa compra de hortaliças.

Finalmente, a ideia de que o acesso aos escritórios e serviços "obriga" as pessoas a passar pelas poucas bancadas tradicionais que restarem enferma de uma visão de mercado-jardim-zoológico (subir ao mezzanine e espreitar o 'exótico'?) que vale tanto como dizer que a indústria têxtil do Porto está viva nas maquinetas do NorteShopping.

O problema é outro, e tem a ver com a necessidade de funções paralelas na cidade, a servir ricos, pobres e remediados, turistas, residentes e city-users. Tal como a existência de analfabetos não invalida a necessidade de ter universidades, é a questão pragmática da diversidade, da acumulação, e até da redundância necessária que importa discutir. Para além, claro, da questão patrimonial, levantada por arquitectos e outros profissionais preocupados com o modo como uma proposta formal excessiva desvirtua as características essenciais do mercado. E não, a fachada não é o principal: é preferível pintá-la de rosa-choque e manter aquele espaço interior iluminado e íntegro, a usar o velho truque da "caixa dentro da caixa" para atafulhar o mercado com volumetrias insólitas.

Por tudo isto, há que passar do protesto à proposta, e aprender com cidades que já regeneraram os seus mercados e fizeram deles fontes de diversidade social, oferta comercial, rentabilidade e turismo.

1. Modernizar a oferta através de 'especializações' paralelas e variáveis: produtos gourmet, mas também happy hours de sumos naturais, produção biológica, gastronomia de outros continentes e culturas, semanas temáticas, entre outras.

2. Em função da localização, apontar a oferta ora para residentes, ora para turistas, ora para city-users. Os mercados não servem todos o mesmo público, nem o mesmo poder de compra.

3. Funcionamento em rede: criar uma rede 'oficial' de mercados da cidade, a partilhar recursos, eventos e públicos, tornando eficaz a gestão e transmitindo uma ideia de dimensão, que pode até ser exagerada, mas é útil; integrar também estes espaços nas redes europeias de mercados, e com isso partilhar produtos, divulgação e programas educativos.

4. Em horários alargados e versáteis, levar outras actividades aos mercados. Numa cidade que passa o tempo a organizar eventos ligados à gastronomia e vinhos, porque não levá-los, juntamente com os congressos, as dezenas de workshops, provas de vinhos, e apresentações de escolas de hotelaria, para a rede de mercados? Porque não pegar no sector da gastronomia e vinhos, um dos pontos fortes da cidade, para actualizar as funções dos mercados, com consequências óbvias na atitude (e na renovação) dos vendedores, no funcionamento, na diversidade de públicos e na rentabilidade.

Ou seja, trata-se de aprender com quem já passou pelos mesmos desafios, e usar a imaginação para perceber que os hábitos não são tão estáveis como os estudos mostram e que a cidade 'social' muda muito mais depressa do que a sua correspondente 'física'.


Rodrigo Viseu Cardoso, Arquitecto
publicado por JCM às 14:59 | comentar | favorito