Às voltas com a Cidade (artigo de opinião - Público)

Às voltas com a Cidade

Por José Sarmento de Matos

É com alguma frequência que surge, seja em publicações, seja em itens de colóquios, conferências ou actividades quejandas, nas quais se juntam sempre umas meias-dúzias de pessoas para elucubrarem sobre a problemática moderna dos aglomerados urbanos, a expressão que, de tão gasta, se vai tornando quase indispensável, cuja é: PENSAR A CIDADE.

Em boa verdade, sempre me intrigou o sentido subjacente a esta expressão, nem que seja pela indiscutível boa-vontade dos proponentes, empenhados, sem dúvida, em contribuir para o sucesso feliz dos centros onde lhes calhou habitar. Em boa verdade, fica-se com a ideia, por certo errada, que há quem admita que a cidade é qualquer coisa que se pensa de uma só vez, brotando, qual nenúfar em flor, do lago plácido da crosta daTerra, implantada por artes mágicas nas mais díspares localizações do planeta.

Nesta locução, a CIDADE é um conceito eminentemente abstracto, sujeito a ser pensado pela vontade acrisolada daqueles que se preparam para tal exercício cansativo, resultante de um acto fundador que lhe moldou para sempre as condicionantes vivenciais. Por isso, o que resta fazer é PENSAR a melhor forma de nos ajeitarmos a essas mesmas condicionantes, procurar o caminho estreito para se sair do imbróglio labiríntico em que nos meteram.

Os anos já dilatados que levo de me debruçar sobre a história de Lisboa ensinaram-me, pelo menos para já, duas coisas fundamentais. Em primeiro lugar, a Cidade não é passível de ser abordada como qualquer forma de conceito, muito menos abstracto, pois o maior fascínio de cada uma delas consiste exactamente na impossibilidade congénita de transpor experiências ou confrontar realidades. Cada cidade é um caso muito específico, sendo goradas ao insucesso quaisquer tentativas de teorizar em esquema sobre o conceito. É certo que todas têm ruas, casas e gente, palácios, hotéis e bordéis, restaurantes, cafés e esplanadas; mas essa similitude esgota-se na epiderme urbana, pois os caminhos ínvios, quantas vezes milenares, que conduziram a essa aparente uniformidade condicionam de tal forma a vivência profunda dessas realidades que o observador mais despreocupado distingue sem grande dificuldade - quase até só pelos cheiros ou os tiques dos habitantes - quando está em Lisboa, Roma, Paris, Nova Iorque ou Xangai. Qual será o resultado dos esforços de dois maduros cidadãos, um lisboeta e o outro de Xangai, se entregarem na boa à atitude positiva de PENSAR A CIDADE, a partir naturalmente das suas próprias experiências concretas? Uma trapalhada, e, por mais que se esforcem, os trilhos projectados nunca se encontrarão.

A outra coisa de que tomei forte consciência é o condicionalismo geográfico em que cada cidade nasceu e cresceu, ganhando, como alicerce estrutural do pensamento, a ideia que história sem geografia é outra modalidade de exercício abstracto sem qualquer sentido. Imagine-se Lisboa sem o Tejo, Paris sem a fertilidade pujante da sua Île-de-France ou Londres sem o carácter ímpar de capital de uma ilha. Todos estes detalhes, alguns por vezes que só se descobrem ao fim de muitos anos de lupa em punho, condicionam de tal forma a vida das pessoas que se juntaram naquele local preciso, que a sua gastronomia, o seu trabalho ou os seus lazeres estão intimamente ligados à idiossincrasia do local como às disponibilidades que a água ou a terra disponibilizam.

Quando aqui há uns tempos se discutia apaixonadamente a localização do cais de contentores em Alcântara, isto só para dar um exemplo, pensava com os meus botões que aquela gente que se agitava tão veementemente contra não fazia a menor ideia que no dia em que Lisboa deixar de ser um activo porto de mar - o maior da faixa atlântica da Europa, é bom não esquecer - se condenará a uma agonia lenta, talvez muito linda para a vista dos prédios da colina ou para o desfile contínuo dos camiões turísticos entre os escombros das actividades que de facto lhe instilaram vida e lhe alimentaram a alma. Talvez então esse grupo animado de pessoas, com os pezinhos a chapinhar na água, se entregue ao supremo exercício imaginativo de PENSAR A CIDADE.

Olissipógrafo
publicado por JCM às 09:53 | comentar | favorito