Retoma ou transição?

Num artigo do sempre divertido e amargo James Howard Kunstler, que o José Mota (JM) descreve de forma certeira como uma mistura de Medina Carreira e João Jardim com sotaque americano, a ideia de "retoma" é trucidada e lançada à parede com a perícia de quem sabe escrever e se especializou na descrição da doce catástrofe:
The hardships of today do not represent a dip in some regular cycle of financial push-me-pull-you. This is a systemic, structural change in the socio-economic ecology of human life.
...
This idea of "recovery" promulgated by authority figures who ought to know better is the cruelest swindle of them all, and perhaps the ...final one. If you want something like gainful employment in the years ahead, don't rely on the corporations, the government, or anyone with a work station equipped cubicle.
(Hat tip ao Alberto Castro Nunes)
Devo dizer que o JHK sempre me divertiu, mas raramente me convenceu sobre o futuro. Há uns tempos almocei com ele em Lisboa e ao lembrar-lhe que também se tinha enganado nas suas previsões (circa 1999) da inevitável catástrofe que causaria o bug do milénio, ele perdeu o humor e ficou uns largos minutos a justificar-se visivelmente irritado. Para além deste pequeno incidente, é como todos os pessimistas: uma personagem simpática e muito divertida. Leio-o irregularmente como encenador competente e mordaz do futuro - que involuntariamente dizem mais sobre dele e Saratoga Springs do que sobre o mundo. Nunca deixo de admirar a confiança que ele tem nas suas palavras e previsões. Tal como o Zandinga (e não estou a comparar a qualidade) ele também expõe o peito com coragem ao futuro. Pessoalmente habituei-me a considerar as suas previsões como visões - talvez elas sejam mais úteis se não as levarmos totalmente a sério, mas narrativas que nos ajudam a pensar o presente. Sendo assim, a justificação dele de ter falhado a previsão da desgraça na passagem do milénio pode fazer sentido - não aconteceu precisamente porque fizemos o esforço de imaginar e corrigir o futuro. Sobre as previsões de futuro prefiro ficar-me sempre pela máxima futebolistica: "prognósticos, só no fim do jogo".

Isto a propósito da minha dificuldade com a palavra "retoma". Não tendo respostas, fico um pouco perturbado com a nossa vontade de voltar atrás. Será possível, ou mesmo desejável? Que alternativas existem? Será falta de imaginação? Todos os esforços são por isso válidos. Inventar um novo sistema e paradigma não é nada fácil e exigirá cortes radicais com o passado, revoluções como nos explicou o Kuhn noutros contextos.

Neste conjunto de esforços de sairmos do buraco, diz-me o JM, começou ontem uma conferência em Chicago: "Global Metro Summit: delivering the next economy". Sobre cidades e as possibilidades de "retoma". Na breve introdução à conferência, logo a seguir ao enquadramento inevitável da crise, surge o seguinte parágrafo:
"What would this reset look like? Top economists, such as National Economic Council Chairman Larry Summers, think the shape of the next American economy must be more export-oriented, low carbon, innovation-fueled and opportunity rich."

Alto lá! Por coincidência acabei de sair do filme "Inside Job" (que recomendo, em exibição em Lisboa, Porto e Faro - A Verdade da Crise), onde o Larry Summers é convincentemente caracterizado como um dos protagonistas, se não mesmo o protagonista, do buraco em que nos encontramos. Talvez esta reciclagem de gurus e paradigmas seja o que mais me perturba nesta ideia de "retoma".

Poderei estar a ser injusto com a conferência em Chicago - mas por aqueles lados ninguém cita Larry Summers sem saber o que está a fazer.

Mais refrescante, porque invoca um outro mundo, são os conselhos do Kunstler no fim do seu artigo:

Start reading up on gardening and harness repair. Learn how to fix a pair of shoes. Volunteer for EMT duty if you're already out of a paycheck, and learn how to comfort people in medical distress. Jobs of the future will be hands-on and direct. I have no idea what medium of exchange you'll get paid with, but a chicken is a good start. 

Retoma ou transição?
O importante é começarmos a conversar mais e melhor. Por isso mesmo parabéns pela iniciativa - Cidades pela Retoma.
Mário Alves (email)

publicado por JCM às 13:50 | favorito