Mitologia Urbana (crónica de João Seixas, Público)

Mitologia Urbana I

Público
Um bom mito urbano, novo ou velho, inclui sempre mais emoção e sensação que racionalidade.
Baseado em locais e factos reais, história com algum sentido, distorce-se em si próprio, com o tempo e com os contos de quem conta. Ficam sempre a faltar algumas partes para um todo mais óbvio, ficando assim algo em suspenso, e até mais permanente. Portugal, país de marés e nevoeiros, está cheio de mitos urbanos. Aqui vão alguns bem actuais (3 nesta crónica, 3 na próxima). Ou quando as partes e variáveis que importam – e mesmo as que não importam  não estão todas em jogo.

1. Cidade e Política. Este mês o governo aplicou novo aumento às tarifas de transportes urbanos e suburbanos. Em pouco mais de seis meses, as tarifas em Lisboa e no Porto aumentaram cerca de 20%, e nos comboios suburbanos quase 30%. Disse o ministro que ‘os sacrifícios têm que ser partilhados por todos’. Belo princípio. Estes aumentos nos transportes públicos, sentidos directa e duramente por uma vasta camada da população, vão melhorar as contas do Estado em cerca de 1% do valor assumido pelas dívidas do BPN. Sobre ‘sacrifícios partilhados por todos’, estamos conversados. Assim como sobre os excelentes sinais que se dá na confiança no bem público e na sociedade como comunidade. Mas há muito a conversar sobre outras variáveis. No preço real dos transportes, visto pelo custo médio de vida dos portugueses e assim comparado com outros países. No aumento do custo de vida dos que já são pobres, não obstante a tarifa social proposta. Na mais difícil motivação para os cidadãos utilizarem os transportes colectivos, simplesmente porque lhes parece mais urbano, mais sustentável e mais cívico. No aumento do desequilíbrio face ao automóvel, muito mais ineficiente e dependente a 100% de energia importada e não renovável. Mas aqui, o maior mito, cheio de nevoeiro, é mesmo entre política e cidade. Quando há um desfasamento enorme entre a escala dos problemas e a escala das soluções, entre a vida quotidiana das cidades e quem deveria de facto governá-las. Governá-las bem, bem entendido.

2. Cidade e Identidade. Sabemos como os rios e o mar cravam fundo na nossa alma lusa. Lisboa nunca seria Lisboa sem as suas margens e seu porto de rio e mar, desde os fenícios até hoje. Durante muito tempo ignorou-se esta alma genética, abateram-se barcos e rotas, mais ocupados em terraplanar e construir ‘mar urbano’ terra adentro. O Tejo quedou-se quase sem navios, sombra azul do que era ou poderia ser, e o nosso desassossego ficava em terra, ainda mais melancólico e sem salpicos. Mas eis que, recentemente, todos falam de novo no mar, o mar e seu fantástico potencial. E o rio, claro. Há ainda eventos culturais interligados, como o festival do peixe. Acho óptimo. Entretanto, enquanto altas eminências debatem contentores de Alcântara e o futuro do mar, entre promessas de regatas internacionais e de grandes projectos turístico-imobiliários, fecha-se a única lota de Lisboa, em Pedrouços, onde a Docapesca tem a sua sede e onde actuavam diversas empresas ligadas à pesca e ao mar. Que belíssimo mito. Cheio de nevoeiro, literalmente.

3. Cidade e Arquitectura. Prevê-se um arrojado edifício no nevrálgico largo do Rato, em terrenos onde estão actualmente umas modestas casas. Tem havido grande polémica e razoável debate em torno da arquitectura, da modernidade e de rupturas. Mas também da autoridade de arquitectos famosos e de aprovações municipais prévias, enfim do lugar da própria cidadania e da crítica social. Este projecto, e seu processo, são sérios candidatos a novo e fresquíssimo mito. Especialmente no nevoeiro em torno do que será um urbanismo de qualidade, hoje, com tudo o que tal implica. Em todo o debate, silêncio quase total sobre uma instituição de instrução e beneficência que ali está desde 1896, apoiando até hoje a educação de crianças de famílias desfavorecidas, e que desapareceria com o novo projecto. E muito pouco sobre os impactos que este tipo de intervenções têm nos espaços e nas dinâmicas públicas da cidade, em particular num largo tão vital e tão maltratado nas últimas décadas.

É Verão. Temos um clima magnífico. Frutas, peixes e vinhos de estalo. Praias, rios e paisagens de primeira. Continuamos a produzir valentes mitos, por entre debates, desígnios, marés e nevoeiros. Será talvez natural que com tantas benesses para corpo e espírito, nos embale bem mais a emoção que a razão. Mesmo assim, como dizia Espinoza e diz agora Damásio, um pouco de razão com emoção não nos faria mal, muito pelo contrário. Manteríamos óptimos mitos e belos nevoeiros – mas no seu devido lugar.

Mitologia Urbana (II)

Público

Entre razões e emoções, e no seguimento da crónica anterior, junto mais três mitos urbanos. Ou quando as partes e variáveis que importam, não estão todas em jogo.

1. Cidade e Comércio. As cidades sempre pulsaram como locais de intercâmbio, o seu vigor geral muito ligado ao vigor mercantil. Um eficiente e (coisa muito similar) ecológico fornecimento de alimentos e de outros bens, é base da prosperidade e identidade urbana. Portugal, país de mercadores, terá assim óptimas cidades, cheias de comércio e de actividade. Bom, em parte é verdade. Mas só em parte. A questão aqui é que este mito – o de que somos óptimos no comércio – pode estar a arruiná-lo. A verdade é que o comércio, especialmente o mais pequeno e mais próximo, tem definhado a pouco e pouco. Por várias razões, não poucas dos próprios comerciantes. Mas sobretudo por uma cultura que ainda anteontem saiu da baixa pobreza e que tanto adora o cheiro a gasóleo pela manhã como os néons dos hipers ao fim da tarde. E por uma política que adora respingar urbanizações, faixas de rodagem e enormes centros comerciais. Coisas que, para além de pouco ecológicas e (coisa muito similar) pouco económicas, vão cercando o comércio de proximidade e sua diversidade urbana e empresarial. Vejam-se os mercados, corações urbanos por excelência. Em Lisboa, é difícil perceber como é que uma cidade com tanto pergaminho e tanta gente, centro de uma magnífica região com magníficos produtos, não tem magníficos mercados pulsando em cada um dos seus bairros. Contribuindo para a sua dinâmica económica e identitária, e para a sua pluralidade alimentar e empresarial, não a entregando toda a duas ou três únicas entidades. O vigor das cidades, e de outras coisas importantes como a vida de bairro, a identidade, a ligação à terra e aos elementos, passa muito por aqui.

2. Cidade e Inclusão. Inclusão, solidariedade e assistencialismo são elementos essenciais à vida colectiva. Mas são coisas diferentes. Políticas de inclusão social não são o mesmo que políticas de solidariedade. Nestes tempos de profunda crise económica e de não menor desorientação política, quais deveriam ser as prioridades? Vem isto a propósito de um mito com longas barbas, mas pelos vistos fresquíssimo e a respingar imenso, o de que as políticas sociais são um custo para o Estado e para a sociedade. Um custo que provoca deficit, e que como tal há que reduzir. Pois o que se passou em Londres não foi ontem. Foi hoje. E não foi longe, foi aqui. De repente, a cidade ficou perigosa, zangada, nada cúmplice. Ora, a cidade somos nós. Está melhor quando tem objectivos e oportunidades, e pior quando as portas se fecham e os horizontes falham. Dilema fortemente pendular e muito sentido pelos mais frágeis e (coisa muito similar) mais desprotegidos: os mais pobres, os mais jovens, os mais afastados. As políticas sociais são vitais para uma melhor sociedade. Não são um custo, são um investimento. São as pessoas, em quem se deve investir, que resolverão os deficits, os de hoje e os de amanhã. A cidade inclusiva e solidária é (coisa afinal tão similar) a cidade mais competitiva.

3. Cidade e Cidadania. Um inquebrável mito é o de que em Portugal ‘não se participa’. Como na canção dos Deolinda, ‘Movimento perpétuo associativo’, onde após entusiásticos ‘agora sim’, vêm uns resignados ‘agora não’, até o ‘vão sem mim que eu vou lá ter’. Porém, pouco a pouco, desponta entre nós uma diferente cultura política numa juventude mais instruída e mais consciente, por entre (ou por causa de) as distâncias partidárias, as hipotecas das casas e os recibos verdes. As novas gerações são menos parvas e rascas que as anteriores. Estudos recentes confirmam não só um aumento da consciência política e da propensão para intervir, na política e na ecologia – incluindo nas opções do dia-a-dia – como também uma visão cada vez mais ampla da cidadania, não apenas como direito político (já é muito), mas mesmo como modo de estar e de qualificação da vida individual e colectiva. A cidade, por ser cidade, será fermento de criatividade e de inteligência, por muito que as ideologias pseudo-liberais (um dos mais espúrios mitos da história e da economia) a queiram debilitar, bem como ao poder local. Será nelas que se desmontarão os piores mitos urbanos. Construindo-se novos projectos, novos horizontes e, com certeza, renovados mitos.

João Seixas, Geógrafo


publicado por JCM às 09:00 | favorito